domingo, 23 de novembro de 2014

Sobre a culpa e o filho que ainda nem veio.

Um domingo qualquer com cara de solidão e tudo começa com a consciente e necessária repulsa à paixão.

Ronda mastigou um tubo de cola Super Bonder ao final do dia. O tubo pregou na sua pata e no edredom, lençol e protetor do colchão quando ela veio se aconchegar na minha cama pra pedir socorro. Achei que fosse só dengo porque tinha acabado de chegar e quando percebi a situação, primeiro fiquei um pouco brava por ser ela tão sapeca. Já a tinha nos braços após cortar sem dó alguma o edredom. Enquanto eu tentava ajudar com água morna e um jeitinho, me perguntava como aquilo teria parado ao alcance dela. "Eu devo ter derrubado da bancada quando coloquei a sacola de compras". Senti tanta culpa... Liguei para a Sandra quando vi que não estava dando nada certo. Eu ia precisar de ajuda. "Qual é o veterinário mais próximo à essa hora?" Desembestei a chorar quando minha pequenininha começou a demonstrar dor e impaciência. Eu não podia mais mexer em nada, mas ainda assim precisava fazer alguma coisa. Segurando a patinha dela para que não levasse à boca liguei pra Elisa e pra minha irmã. E a essa altura eu não sabia mais se chorava por culpa, pela estranheza de incomodar e ter que precisar de ajuda ou pelo sentimento de fracasso por não conseguir ajudar minha viralatinha.

Ela se acalmou, eu me acalmei e o éter do veterinário deu um jeito de evitar que algo pior acontecesse. De tudo isso, ficou um amor que eu nem sabia que já tinha, a certeza de que ainda não estou preparada para ser mãe de um bebê, a culpa e a tristeza por isso (e não só por isso). "Que tipo de mãe seria eu?" - era só o que eu pensava desde então.

A Ronda ficou ótima, eu destruída. Fomos à pracinha na segunda e eu continuei pensando naquilo. Dizem por aí que filhos de professores são os "piores". Pra isso eu até estava preparada. Envolvida em um caso de família bem complicado, desde a semana anterior eu já havia retomado o receoso pensamento de não saber ser mãe do meu filho pelo fato de ser educadora. E ainda conheci um homem que já no primeiro encontro revelou ter uma ideia que eu achava ser só minha. E uma ideia que eu achava egoísta e ridícula! Daniel também acha que ter filhos é uma forma de contribuir para ter um mundo melhor, para sermos melhores. Acha que é uma missão.

É claro que eu fiquei encucada com isso (e não só por isso!).
Eu não me perdoaria se falhasse nessa missão. Tanto que a dei por impossível por não ser capaz de, sequer!, começá-la. Não vou ter um filho se não puder dar a ele um bom pai e isso está resolvido.

Ronda vai fazer só cinco meses aqui comigo, mas... de tão satisfeita, desde que a adotei, não pensava mais nessas coisas. Essa semana, voltou tudo!


Não bastasse voltou também uma pseudo paixão mal resolvida que não ata, nem desata. Que envolve filhos, a falta deles e culpa, claro! Muita culpa! Eu não podia pensar em outra coisa que não fosse culpa por ter retomado esse envolvimento.

Existe a teoria de que as crianças chamam irmãos e Ronda cumpriu todos os quesitos durante essa semana. Pode ser que eu esteja inventando, mas... até a minha cartela te pilulas anticoncepcionais ela mastigou. Não pode ser só neura minha. Não pode! Não pode ser só coincidência que tenham me ligado da clínica do meu ginecologista, que bebês tenham vindo no meu colo, nem que a mãe de um aluno (grávida!), tenha vindo conversar comigo sobre como é a espera da gravidez, o amor que nasce com o parto, a culpa por não escolher um super pai...

Foi uma semana down. Perdi o ânimo pra ir malhar e estou com aquele típico sono da fuga. Com isso peso, preguiça e trabalho acumulados. A garganta deu sinais de que queria adoecer, o coração sinais de que ia amolecer.. e isso tudo só deu um up na culpa. Chateada quando vejo a patinha da Ronda dura, quando quero ficar de prosa no WhatsApp e sei que não devo. Culpa, culpa. Haja culpa!

Reconhecer os meus erros, aceitar as minhas fraquezas, ser intensa na minha tristeza até esgotá-la. A consciência foi feita pra reprovar o mal e apontar a culpa. Tive uma semana péssima por conta disso tudo. Mais por ser consciente. Agora já estou pronta para melhorar. "São tudo pequenas coisas. E tudo deve passar" - é assim para (os bons) meninos e meninas.