sábado, 8 de julho de 2017

Carta de demissão

Ei!

Não volto mais. Com muita coragem consegui me desligar. Não estava feliz. A mudança precisou ser radical, mas foi muito boa! Adoeci e tenho me cuidado agora.  Quando a gente não tem tempo pra nossa saúde, acaba tendo que fazer tempo pra doença. 😕

Mas estou feliz! Agora sou uma pessoa que não usa só uniforme e crachá. Não me importo de vestir a roupa mais barata para arregaçar as mangas e cuidar da minha vida pessoal, afetiva, espiritual, familiar, intelectual, social... cuidar mais do que sou e menos do que tenho. Não me restam dúvidas. Só me convenci mais uma vez de que mais importante do que só ter é SER. E SER uma (BOA!) pessoa, cristã, namorada, madrasta, irmã, sobrinha, tia, prima, amiga, vizinha, cidadã. Tudo isso acabou ficando comprometido em função de eu SER uma BOA coordenadora. BOA professora. BOA profissional. Porque, queridos companheiros, acreditem! Eu nunca estive aí só para TER um BOM emprego. Fui o melhor que consegui ser. E quando vi que não conseguia mais... Sim. Pedi pra sair, Capitão. Não sou qualquer 02. Isso, nunca serei!

Foi quando eu percebi o meu namorado se afastando, porque eu estava mesmo longe quando ele precisava. Vi minha cunhada pedir ajuda para montar o quartinho do bebê e eu me afligir por não ter tempo para oferecer. Foi minha irmã que pediu pra nos encontramos algumas vezes e, nem no domingo, eu consegui. O jeito que ninga cachorra me recebe em casa quando (e só quando) eu chego. Foi minha habilitação vencida e a cirurgia do siso mal feita desde Janeiro que eu precisava de tempo pra tentar resolver. Foi o almoço com as amigas de SEMPRE que eu precisava agendar. As preces que não poderia deixar de fazer. Os bebês, as amigas, os parques e igrejas que eu precisava visitar. As reuniões de estudo que eu preciva frequentar. Os livros que precisava ler. As guias que eu precisava confirmar. A Boa Nova que eu precisava praticar. O cabelo, as unhas, o armário, a casa, a vida que eu precisava arrumar. Foi isso. Foi tudo isso.
Claro que eu pensei na possibilidade de ver o meu relacionamento acabar, de ver minhas amigas desistirem, meus irmãos afastarem, minha cachorra parar de me pedir colo, meu sobrinho me estranhar... Pensei na grana, na carreira, no currículo, na economia do país E também na bulimia, na depressão, no fanatismo, na dependência, na carência. Nisso e em mais um monte de coisas.  Só que nada mudaria se eu não mudasse. E foi pensando nisso que eu assinei.
O profissional pode esperar um pouquinho agora.